É tudo muito incrível quando se acompanha o crescimento de uma criança. Meu filho sempre me causa muitas surpresas, e a do dia 24 de fevereiro de 2011 foi uma totalmente linda. Eu cheguei da faculdade como de costume ás 23:15h, e também como de costume, meu filho estava me esperando com a “corda toda”, eu entrei em casa nem bem jantei e já fui brincar com ele, o tio dele chegou do colégio e ficamos nós três na sala brincando como crianças. Eu estava mais atrás do Gui e do tio dele, não sei bem o que aconteceu, mas ele ficou irritado com o tio e me chamou, “mamaã”, quando eu olhei e estiquei o braço ele veio andando em minha direção; na hora foi muito automático, eu dei um grito fiquei tão feliz, ele estava vindo pra mim andando sozinho, ele já andava mas só se alguém lhe desce a mão, tive que filmar aquilo e não me lembro de outra situação em que eu ficasse tão feliz em fazer um vídeo.
Agora é assim ele já anda, meu homenzinho está andando, e eu já sinto uma tremenda falta de quando ele mamava no peito, sinto falta de quando ele precisava muito de mim, e olha que ele ainda vai precisar muito, afinal ele só tem 1 ano e 3 meses. Mas esse pequeno gigante tem muita história pra contar, quem o vê andando assim nem acredita que aos nove meses de vida ele passaria por uma cirurgia do coração. =/
Pois é, meu bebê é um vitorioso nato. Aos 3 meses de vida o Guilherme não ganhava peso, crescia normalmente mas não era uma criança gordinha, após uma gripe que era pra ser normal, o Guilherme foi diagnosticado com uma CIV (Patologia cardíaca. Significa Comunicação Inter Ventricular. É quando há uma comunicação (um "furinho") entre os ventrículos, o que não deveria haver). No auge do meu desespero quando eu realmente não sabia o que fazer muito menos em que pensar, descobri que meu filho a qualquer momento teria que realizar uma operação, não dava pra acreditar, que meu pequenininho ia passar por uma sala de cirurgia. Começamos a tratar do problema do Guilherme, o problema não prejudicou o desenvolvimento mental dele, ele se mostrou muito inteligente, uma criança normal que SEMPRE me deu muita alegria, mas eu sempre fiquei muito receosa, com uma angustia muito grande, afinal a qualquer momento a Dra. Ieda, médica que o acompanha poderia simplesmente falar que ele deveria ser operado.
O quadro clínico dele foi evoluindo bem, mas aos 9 meses de vida chegou a hora que eu tanto queria evitar pro meu bebê. No dia 9 de setembro ele seria operado. Não me lembro em nenhum momento da minha vida de ter sentido uma sensação de tanta impotência como aquela que eu sentia, meu filho seria operado aos 9 meses de vida e eu não poderia fazer nada, apesar dos médicos tentarem me tranquilizar foi totalmente em vão, passei os 20 dias anteriores a cirurgia com os nervos a flor da pele, e como geralmente agente só pensa em Deus quando se vê em um beco sem saída, eu passava muito tempo pensando em Deus, chorando muito e implorando para que Deus não abandonasse meu filho nem mesmo por 1 segundo.
Dia 8 de setembro, o Guilherme foi internado no hospital do coração em São Paulo para observação antes da cirurgia, foi o dia em que eu fiquei mais inquieta, qualquer coisa me fazia chorar muito e eu não queria de maneira nenhuma entregar meu filho, queria ele do meu lado, mas era inevitável. No dia 9 de manhã começaram os preparativos, exames e mais exames, e eu vendo meu pequeno sendo furado, vendo o soninho dele ser incomodado a todo momento, até que ao meio dia vieram me avisar que eu teria que dar um remedinho pra ele dormir e levá-lo para o centro cirúrgico. Deve ser coisa de mãe, mas a sensação de medo, angústia, a sensação de me sentir pequena, e a vontade de simplesmente acordar de um pesadelo terrível, daqueles que parece que foi de verdade, eram nítidas e cruéis, com uma mãe que ama tanto.
Após cinco horas de cirurgia, meu filho estava fora de perigo, e já poderia subir pra UTI, mesmo com os médicos (muito competentes e que salvaram a vida do meu filhote) falando que estava tudo bem e que ele iria e recuperar, eu estava muito ansiosa eu não sai da sala pra nada, (e esses dias me renderam 6 quilos a menos) fiquei o tempo todo esperando o momento de poder pegar na mãozinha dele, afinal é coisa de mãe só ter certeza do bem estar de sua cria se puder ver de perto. Quando eu entrei no UTI, vi a cena mais pavorosa que eu poderia imaginar, novamente como em um filme de terror, eu estava em estado de choque, meu filho estava no leito 4, perto da porta em um berço de ferro, só de fralda, com um monte de drenos e caninhos, tinha um dreno na barriga, um no pescoço, e estava com dois canos, um na boca e um no nariz, estava inchado, gelado, pálido com a boca roxa, pensei que fosse pelo frio, peguei um lençol que estava perto dele e o cobri, o ambiente triste e gelado da UTI era tenso, e me deixou gelada também. Ele estava dormindo, e o término dos 15 minutos da minha visita, foi mais uma vez um momento de pura tristeza.
Quando fui saindo junto com outras 6 mães, que estavam na mesma situação de desespero que eu, umas até mais desesperadas, é que eu fui tendo dimensão do quanto se tem que ser forte para ser mãe, foi naquela hora que eu entendi que ser mãe não é simplesmente dar a luz a um bebê, tem que sentir a benção, tem que sentir lá no fundo da alma o chamado que Deus fez, tem que assumir um pacto de vida e morte com aquele ser que se formou dentro de você, você é a origem daquela vida e ela se tornara a extensão da sua vida. Um casamento eterno, e é coisa de mãe assumir o compromisso de amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e assumir também outros personagens em sua vida, a partir de então não se é apenas mãe, é médica, é conselheira, é cozinheira, é arrumadeira, é professora, é chata, é leoa e briga pela cria, é sinônimo de carinho, amor, compreensão, aceitação, fidelidade, cumplicidade, enfim, um compromisso difícil porém eterno e em alguns casos gratificante.
O Guilherme não ficou muito tempo na UTI, com apenas 12 horas já estava no CTI e 12 horas depois estava subindo para quarto, já desinchado e com um pouco mais de cor, meu filho já surpreendia, estava brincando, comendo direito, como se estivesse em casa, recebeu visitas e brincou com todo mundo, virou xodó das enfermeiras, e sua força me deixou muito orgulhosa de ser mãe dele.
Hoje, 6 meses e 8 dias depois do dia que meu filho foi operado, que eu o tenho ao meu lado, andando, aliás correndo pra todo lado, me esperando chegar da faculdade pra brincar de batuque à meia noite, olhando para o espelho e tirando foto com a mamãe, me dando beijo, correndo dos meus apertões, puxando minha mão pra sair pra rua, fazendo carinho em mim quando vê uma lágrima caindo do meu do meu olho, deitado do meu lado e me procurando na cama na hora de dormir, olhando pra mim de manhã e dando um sorriso enorme com aquela boca linda e cheia de dente, me chamando de mamãe e me tornando em conjunto com gente muito especial (pai, mãe, avó, irmão, amigos, namorado) a mulher mais feliz e realizada do planeta. Por que eu tenho o melhor presente que alguém poderia ganhar, e esse presente atende pelo nome de Guilherme Veríssimo dos Santos.